Boletim da 305ª Sessão: “Pépé le Moko”, de Julien Duvivierde 1937


“(…) “Pépé le Moko” coloca-nos exactamente perante populações das margens, numa então colónia da França, povoada por distintas gentes, ao longo de uma história centrada num grupo de criminosos, em particular no personagem do título, interpretado de forma sublime por Jean Gabin, compelindo-nos a sentirmos alguma afinidade por este anti-herói. Diga-se que Julien Duvivier é certeiro na exploração do elenco, dando espaço a vários actores e actrizes secundários para sobressaírem, criando uma teia narrativa coesa, onde nos apresenta um conjunto de personagens interessantes de acompanhar, com personalidades bem definidas e vincadas. Veja-se desde logo Inès, uma cigana que ama o protagonista mas é rejeitada por este; Carlos, um elemento algo rude e intempestivo do gang; o traiçoeiro Slimane; o ingénuo Pierre, entre muitos outros que fazem sobressair a qualidade do argumento desta obra que tem como pano de fundo um claustrofóbico território argelino. O território da casbah de Argel é cenário e personagem de “Pépé le Moko”, com as suas características a serem-nos apresentadas desde o início e a serem exploradas ao longo da narrativa, visível quando encontramos Pépé em fuga pelos terraços que ligam os diferentes prédios, ou quando este decide partir da casbah, mas também na forma como encontramos as suas ruas sempre muito povoadas. Este excesso de população não implica que o protagonista se apaixone pelo território, bem pelo contrário, com este a desejar sair dali para a fora, a sonhar com o regresso para Paris, embora o seu passado e presente como criminoso impeçam o seu desejo. Este muitas das vezes surge coberto pelas sombras, com “Pépé le Moko” a contar com uma magnífica utilização da iluminação, permeando a narrativa de algum simbolismo e um trabalho de câmara de meter respeito, remetendo também aqui para os noir, sobretudo num dos momentos finais, quando vemos o protagonista agarrado a uma porta com grades, simbolizando a sua prisão, enquanto vê a uma enorme distância a sua femme fatale. Ela é bela e muito sensual, existindo um certo erotismo na sua representação, fazendo o protagonista cantar e sofrer, mas também cair em desgraça, ainda que nem sempre Gabi seja a principal culpada. Entre sonhos de partidas impossíveis e amores improváveis, mortes sentidas e acontecimentos esperados mas não ansiados, “Pépé le Moko” deixa-nos perante um gangster dado a fatalismos e ao sentimento, colocando-nos perante uma obra marcante do cinema francês dos anos 30 e da carreira de Julien Duvivier.”

 

http://bogiecinema.blogspot.pt/2014/03/resenha-critica-pepe-le-moko-1937.html

 

 

FICHA TÉCNICA:

Título original: “Pépé, Le Moko”, França, 1937

Realização: Julien Duvivier

Produção: Raymond Hakim e Robert Hakim

Argumento:       Jacques Constant, Henri Jeanson, Julien Duvivier, Henri La Barthe

Música: Vincent Scotto e Mohamed Ygerbuchen

Fotografia: Marc Fossard e Jules Kruger

Montagem: Marguerite Beaugé

Duração: 94 minutos

FICHA ARTÍSTICA:

Jean Gabin…Pépé le Moko

Gabriel Gabrio…Carlos

Mireille Balin…Gaby Gould, a bela parisiense

Saturnin Fabre…Avô

Fernand Charpin…Régis, o delator

Lucas Gridoux…Inspetor Slimane

Gilbert Gil…Pierrot

Marcel Dalio…L’Arbi

Charles Granval…Maxime

Gaston Modot…Jimmy

René Bergeron…Inspetor Meunier

Paul Escoffier…Chefe Inspetor Louvain

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